segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Sentir com...

Voltando a postar...


Um texto que alivia as cobranças impostas pela distância e ao mesmo tempo nos mostra o quanto ela não significa muita coisa quando se tem...



Afinidade (Artur da Távola)

A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil,

delicado e penetrante dos sentimentos. É o mais independente.

Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos,

as distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade,
qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa,
o afeto no exato ponto em que foi interrompido.

Afinidade é não haver tempo mediando a vida.
É uma vitória do adivinhado sobre o real.
Do subjetivo para o objetivo.
Do permanente sobre o passageiro.
Do básico sobre o superficial.
Ter afinidade é muito raro.

Mas quando existe não precisa
de códigos verbais para se manifestar.
Existia antes do conhecimento, irradia durante
e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas.
O que você tem dificuldade de expressar a um não afim,
sai simples e claro diante de alguém com quem você tem afinidade.

Afinidade é ficar longe pensando parecido

a respeito dos mesmos fatos que impressionam,
comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavras.
É receber o que vem do outro com aceitação
anterior ao entendimento.

Afinidade é sentir com. Nem sentir contra,

nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo.
Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o ser amado.
Quantos amam e sentem para o ser amado, não para eles próprios.

Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo.

É olhar e perceber. É mais calar do que falar,
ou, quando é falar, jamais explicar: apenas afirmar.

Afinidade é jamais sentir por.

Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo.
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar.
Compreende sem ocupar o lugar do outro.
Aceita para poder questionar. Quem não tem afinidade,
questiona por não aceitar.

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças.

É conversar no silêncio, tanto nas possibilidades exercidas
quanto das impossibilidade vividas.

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